Dimas está sentado no centro de uma sala, ao redor existe uma meia-lua de cadeiras para seus acusadores com uma maior ao centro, ao todo são doze, mas todas estão vazias. Será que o julgamento será adiado? O que será que está acontecendo? Onde estão os juizes? Um guarda permanecia em pé na porta de entrada, mas as atenções estavam voltadas para o lado de fora, ou para outra sala onde acontece um barulho ensurdecedor de uma multidão. Ali esta acontecendo uma grande confusão, ou um protesto. Alguém muito perigoso também devia estar aguardando julgamento, e já enfrentava grandes hostilidades. As pessoas gritavam palavras de ordem, uma voz ou outra soava mais alta, e a turba enfurecida gritava palavrões e blasfêmias (Lucas 22.63-65). A confusão às vezes tomava proporções inimagináveis, e parecia que toda a Casa iria abaixo. Assim passou a maior parte do dia, quando, afinal, um juiz entra na sala e rapidamente lê um texto que contém grande parte dos crimes cometidos por Dimas. Enfim leu a sentença – Pena de Morte, mas antes Dimas teria que ser castigado. Neste momento dois soldados o agarraram pelos braços e o conduziu por um corredor. Passaram por várias salas vazias até chegar em uma cela, ali o trancafiaram junto a um outro condenado (Mateus 27.16). Barrabás (esse era seu nome) nem notou a presença de Dimas ali ao seu lado, pois suas atenções também estavam voltadas para o outro julgamento, principalmente porque ouvia a multidão bradando que o queriam solto (Mateus 27.21-23). Passa-se um tempo e um soldado busca Barrabás na cela e o leva para fora (Mateus 27.26). O mesmo soldado volta alguns minutos depois e também retira Dimas do cárcere para receber o castigo que lhe era devido. Enquanto passava pelo pátio, Dimas viu alguém com um manto vermelho, rasgado e manchado de sangue, caído de joelhos no chão, suas mãos apoiadas em uma mesa de pedra o ajudavam a permanecer naquela posição, enquanto uma centena de pessoas à sua volta gritavam, chutavam, cuspiam, chicoteavam e o batiam com um pedaço de cana (Mateus 27.28-30). Dimas sorriu. O sangue de uma vítima ainda lhe trazia uma sensação muito agradável. O soldado o empurrou para um canto do pátio, e o pôs de joelhos também. Dimas ficou aguardando a chicotada, mas ela não veio. Seu carrasco estava mais interessado na multidão enfurecida que crescia cada vez mais do outro lado. Por um instante Dimas cruzou o olhar com o do homem que recebia sua sentença à distância. Havia algo diferente naquele olhar, ele não compreendeu mas naquele momento sentiu um pouco de pena. O que ele havia feito? Qual teria sido seu crime? Será que era um salteador, um assassino, um estuprador? E ele não chorava, ele não gritava, ele recebia toda aquela punição e de uma forma incrível não abria a boca para blasfemar nem para se defender (Isaías 53.07). Em um determinado momento alguém disse que parasse o espancamento. Era chegada a hora. A multidão dava vivas enquanto os soldados arrastavam aquele homem para fora. Dimas também foi puxado, ele também seria crucificado. Um grande congestionamento humano se formou na rua e era difícil caminhar. Todos queriam ver aquele homem, todos queriam participar daquela agressão. O sangue dele era derramado por todos.
Naquele momento o soldado que levava Dimas o arrastou para uma outra rua que estava deserta, por essa seria mais fácil chegar ao local da crucificação. Dimas não pensava na sua morte, mas pensava naquele outro condenado. Perguntou ao soldado o que aquele homem havia feito à sociedade para merecer tão grande condenação. A resposta foi vazia, mas valeu a pena ouvi-la: aquele homem é JESUS e se diz "O FILHO DE DEUS". Dimas conhecia a história, o tal Jesus fazia apenas o bem, curava os enfermos, ressuscitava os mortos, alimentava aqueles que tinham fome, dava esperança aos desacreditados, amparava e fazia justiça aos pobres. Afinal, o que ele realmente fez para ser condenado?
Rapidamente chegaram ao monte onde ocorreria sua morte, onde já havia um outro homem crucificado. Sua cruz já estava preparada e alguns soldados o aguardavam para terminarem o serviço. Dimas olhou novamente para a cidade. Quantas atrocidades ele havia cometido lá embaixo? quanto mal ele havia levado àquelas famílias? E agora ele receberia sua recompensa. Mas... e o outro?
A multidão chegava já ao pé do monte, e ele pode ver um homem trazendo uma cruz (Marcos 15.21) e um pouco para trás estava um Jesus fraco, quase se arrastando pelo chão, suas roupas sujas e rasgadas, seu corpo dilacerado e com cortes profundos, uma coroa enfiada em sua testa, o povo lançando pedras, paus, palavras de blasfêmias, seu rosto tinha uma crosta de mistura de sangue, suor e terra. Algumas mulheres e uns poucos homens ainda acompanhavam a multidão, chorando a sua morte, e para estes ele disse algumas palavras (Lucas 23.28-31), que Dimas não foi capaz de ouvir pela distância que se encontrava.
Dimas foi colocado em sua cruz, e erguido. Embora seu corpo estivesse dolorido pela caminhada dessa forma era melhor para observar a cena que se formava alguns metros abaixo de seus pés. A multidão foi obrigada a permanecer em uma certa distância, enquanto os soldados deitavam Jesus em sua cruz. Dimas e seu companheiro haviam sido amarrados na madeira, mas Jesus recebia tratamento diferenciado. Um soldado segurou seu braço direito enquanto outro posicionava o prego. O martelo desceu e o baque se fez ouvir nas alturas. Naquele instante em toda sua vida, Dimas não sentiu prazer em ver o sangue. Aquilo foi forte demais para ele que foi forçado a olhar para cima, o corpo tremulo, o suor escorrendo por suas têmporas. O céu estava claro e limpo, mas Dimas teve a impressão de ver raios de tempestade se formando no infinito. Uma nova batida com o martelo e seu coração dispara. Aquele homem estava sendo condenado por fazer o bem. Ele estava morrendo porque levava vida às pessoas. Mais uma batida e Dimas grita, ele imagina a dor que o homem está sentindo lá embaixo e quase a sente em seu próprio corpo. O grito de Dimas é abafado pelos gritos de blasfêmias vindos da cruz ao lado. O outro condenado ri, dá gargalhadas, grita para baterem mais forte.
Nesse instante a Cruz do meio é erguida. Dimas não consegue desgrudar os olhos do Cristo. As pessoas lá embaixo dão vivas, gritam, comemoram, continuam as ofensas, pedras chovem de todos os lados, algumas passam bem perto, mas todas tem um endereço certo.
Agora Dimas está com a cabeça erguida em direção ao infinito, os olhos fechados e um filme passando em sua mente, se lembra da infância, da mãe, do padrasto, recorda os crimes, os erros, os medos, os pecados, a violência, o sangue, as lágrimas correndo por seu rosto. Sua vida estava acabando da forma mais indigna possível, mas ele sabia que merecia tudo aquilo. Tudo que fez em sua existência estava sendo pago naquele momento. Dimas ouve alguém dizendo algo. Seria possível que aquele homem, mesmo naquele estado ainda era capaz de perdoar aqueles que o matavam? (Lucas 23.34) . Ainda sem entender ele ouve do outro extremo mais uma voz:
"Você não é o Cristo? Porque não se salva, e aproveite salve a nós também!!" (Lucas 23.39)
Um segundo se passou, uma frase ecoou em sua mente...
"Você não é o Cristo? Você não é o Cristo? Você não é o Cristo?".
Aquele homem realmente era o Cristo, o Filho de Deus, o Jesus, o Salvador, a Solução. Dimas tomado de um último esforço, pois já desfalecia em sua carne, grita ao outro condenado:
Não! Você não é capaz de temer a Deus nem em sua morte? Nem estando condenado e vivendo seus últimos instantes? Nós estamos recebendo aquilo que merecemos. Estamos pagando por aquilo que vivemos em toda nossa vida. Maldade pela nossa maldade. Mas e esse homem? O que ele fez a ti? O que ele fez aos outros? Que justiça é essa que condena esse inocente que apenas trouxe o bem? E virando – se para O Cristo diz
"Senhor, quando estiveres no teu reino, lembre-se de mim" (Lucas 23.40-42). A voz que se ouve, transfere paz a Dimas, a paz que ele nunca sentira em toda sua vida:
"Meu caro amigo Dimas, não passará essa noite e você estará comigo em minha casa" (Lucas 23.43).
Um sentimento inédito, um conforto invadiu sua alma. As lágrimas que rolam em seus olhos não são lágrimas de tristezas nem de dor, são lágrimas de alegria, esperança e certeza da salvação. Dimas no último instante de sua vida estava alcançando algo tão simples e ao mesmo tempo tão complicado de compreender. Ele estava presenciando, recebendo e vivendo a Infinita Graça de Jesus Cristo. Aquele garoto que nasceu na manhã fria e cinzenta de um domingo qualquer, experimentou todos os caminhos do mal e do pecado, entrava naquele momento para a história como o maior exemplo do Perdão de Cristo. E com certeza continuará sendo lembrado por todas as gerações.